sexta-feira, junho 16, 2017

Pedaladas e circo

Jessé Souza*


Definitivamente, não dá mais para entender o Brasil depois das últimas decisões políticas e judiciais. A cassação da presidente Dilma Rousseff foi um caso que até hoje ninguém conseguiu entender direito, pois ela foi arrastada para fora do cargo sob o clamor popular que a acusava de corrupção, porém todo o processo foi baseado em provas contábeis por causa das chamadas “pedaladas fiscais”.

O impeachment foi um caso tão esquisito a ponto de tirarem Dilma do poder, mas mantiveram seus direitos políticos, ou seja, uma forma de compensá-la pela perda do mandato por uma “pedalada” que era (ou é) cometida pela maioria dos governantes brasileiros. Corrupção mesmo, nunca provaram nada contra ela.

Mais recentemente, o processo do pedido de cassação da chapa Dilma/Temer foi outro caso, esse na esfera da Justiça Eleitoral, que mostra o jogo de interesse político influenciando nas decisões judicias entre os membros da mais alta Corte judicial do Brasil.

O ministro Gilmar Mendes mostrou claramente sua posição política ao defender o presidente Michel Temer, alegando que estava agindo em nome da estabilidade política do país, que na opinião dele ficaria com a imagem internacional arranhada por colocar presidentes para fora a todo momento.

O detalhe importante nesse episódio é que Temer está atolado nos casos de corrupção com os demais envolvidos na Operação Lava Jato, com direito a vídeo e áudio. Porém, o bom advogado Gilmar Mendes fez de tudo para que não fossem aceitas as provas de um esquema de propina para alimentar a campanha eleitoral da chapa Dilma/Temer.

Não há como analisar esses fatos sem afirmar que a bandalheira generalizada passeia entre a política e a Justiça. Como conceber uma presidente cassada, mas com seus direitos políticos mantidos? Como enxergar um membro da mais alta Corte judicial que não aceita que provas de corrupção sejam aceitas para cassar um presidente sabidamente envolvido em corrupção?

É desalentador acompanhar diariamente os noticiários sobre a política e perceber que, a qualquer momento, a Justiça poderá ir mandar para casa – com ou sem tornozeleira – os políticos corruptos. O juiz Sérgio Moro, por exemplo, não viu nenhum crime a mulher de Eduardo Cunha movimentar milhões em sua conta no exterior.

E assim é o Brasil da bandalheira. O eleitor elege os safados e a Justiça libera os corruptos. E vamos esperar 2018... Afinal, é ano da Copa do Mundo... Circo para o povo!

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com

Tatuagem na testa


 Jessé Souza*

Se chegassem ETs de outros mundos para colonizar a Terra e, caso tivessem a ideia de tatuar na testa dos seres humanos os erros que essa raça terráquea já cometeu, que palavras seriam grafadas? Com certeza, haveria uma infinidade delas, como bomba atômica, escravidão, as cruzadas cristãs, o nazismo, terrorismo, stalinismo, ditadura, fascismo, o imperialismo...

Obviamente que seria uma injustiça com os terráqueos, pois o ser humano mostrou que, apesar de tudo, houve a superação da maioria dos erros em algum momento da história, embora estejam cometendo outros em algum lugar desse planeta – ou mesmo sendo arquitetados, a exemplo dos conflitos armamentistas patrocinados pelos senhores da guerra.

O ser humano foi feito de erros e até as principais religiões desse mundo dão como exemplo de um erro fatal a maçã oferecida pela serpente, símbolo da expulsão da cria de Deus do Paraíso, o qual todos procuram até hoje. Mas, deixemos a religião de lado para não inflamar a mente de quem já se deixa explorar pelas fraquezas das crenças pessoais.

Erros fazem parte da aprendizagem, desde que as pessoas tomem consciência de que é preciso mudar para melhor a fim de corrigir aquilo que deu errado. O problema é que, com o avanço do egoísmo e do etnocentrismo, com as pessoas achando que sua fé, sua cultura e seus conhecimentos são os únicos aceitáveis e os dos demais reprováveis, estão matando, dentro do saco da mediocridade, a possibilidade de se aprender errando.

Nem às crianças e aos adolescentes está sendo mais permitido o exercício do erro (não confundir erros com crimes, por favor).  Se a humanidade se desenvolveu a partir de seus erros, por que os pais e a sociedade de uma forma geral não querem mais permitir que as crianças errem? É a partir dos erros e das desilusões que elas vão conseguir chegar à fase adulta como uma pessoa equilibrada.

Quantos erros não cometemos na adolescência e hoje compreendemos que não podemos mais cometê-los! Mas hoje, não. Muitos não admitem que as crianças errem, inclusive na escola, onde há gente pedindo logo a mão pesada do Estado para julgar e condenar.

Da forma como a realidade anda, com essa tal de pós-verdade consumindo a mente de muitos, a humanidade só iria refletir sobre errar e educar se os extras terrestres chegassem aqui, de uma hora para outra, e tatuassem na testa de cada pessoa os erros que o ser humano já cometeu em nome de Deus, da paz, da ciência, da evolução e do próprio conhecimento.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com

terça-feira, junho 13, 2017

Cuca e bicho-papão


O brasileiro precisa superar algumas armadilhas dessa chamada pós-verdade que estão infestadas nas redes sociais e transformadas inclusive em artigos que se passam como sérios na imprensa brasileira. Um deles é o discurso de que existiria um movimento para implantar o socialismo e/ou o comunismo no Brasil.

Argumentar a existência de um movimento nesse sentido é o mesmo que tentar assustar as crianças de hoje com o bicho-papão ou dizer que “a Cuca vai pegar”.  O próprio Partido dos Trabalhadores, o PT, o qual os alarmistas chamam de “comunista”, teve um governo que mais entregou os cofres públicos para o capitalismo, escancarando as portas para os grandes banqueiros.

O que as pessoas precisam perceber é que passou a existir um movimento nas redes sociais que apela para as emoções e crenças pessoais a fim de disseminar falsas ideias e até confundir as pessoas, que passam a dar menos importâncias aos fatos objetivos, deixando-se influenciar facilmente sem buscar a realidade dos fatos.

Esse é o movimento que ficou conhecido como “pós-verdade”, cuja palavra foi inclusive adicionada ao dicionário Oxford, embora esse termo fosse antigo. Porém, ele ganhou destaque a partir de quando as pessoas passaram a ter o poder de compartilhar e a comodidade de se informar por meio das redes sociais, deixando-se influenciar pelas emoções (torcendo por candidatos ou partidos como se fosse um time de futebol), pré-conceitos e crenças pessoais.

As pessoas passam a acreditar e a compartilhar falsas notícias a ponto de uma mentira se tornar “verdade” em questão de minutos. Um levantamento feito pela da BBC, com o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação, da Universidade de São Paulo (USP), apontou que, em abril de 2016, na semana do impeachment de Dilma Rousseff, três das cinco notícias mais compartilhadas no Facebook sobre o tema eram falsas.

Dentre os fartos casos de mentiras que tentam se passar como verdade está esse de uma suposta ameaça de se implantar o comunismo no Brasil. Acreditar nisso é ficar cego para se discutir a política brasileira dentro da sobriedade que tanto necessitamos nesse momento crítico. É um argumento tão falacioso quanto os corruptos usam atualmente para tentar frear a Operação Lava Jato.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com

Mais um golpe


Como já estava alinhavado, os ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiram mesmo não cassar o presidente Michel Temer (PMDB), apesar das robustas provas, inclusive com envolvimento na Operação Lava Jato citado nos autos do processo. A mais alta Corte da Justiça Eleitoral apenas confirmou o conluio da maioria dos ministros que são coniventes e até participam de alguma forma dessa bandalheira geral da nação, direta ou indiretamente.

Isso só comprova que os senhores da Justiça brasileira também precisam passar pela desinfecção que o Brasil tanto precisa para desarticular o grande esquema da corrupção que afundou o Brasil da esquerda pra direita e da direita para a esquerda, passando pelo centro ou qualquer lado que possa existir.

A encenação que se fez nas sessões recheadas de defesa ao descaramento,  o qual tomou conta do setor público em conluio com as maiores empresas privadas do Brasil,  já deixava pistas de que o grande esquema precisava continuar, para sobrevivência dos chefes da grande máfia que se enraizou nos cofres públicos a partir da política.

Obviamente que o pessimismo logo se abate sobre aqueles que querem ver o país passado a limpo. Mas esse novo duro golpe, com o livramento de Temer e seu grupo, é só mais um flagelo que o brasileiro tem que passar para que se cumpra a faxina que é necessária e que está por vir, dure o tempo que precisar.

O Brasil já superou barreiras que pareciam intransponíveis, a exemplo de uma ditadura militar sanguinária, e conseguirá encontrar forças para superar a corrupção endêmica que infestou os principais poderes da República. A decisão do TSE, então, só clareou onde é necessário fazer também a desratização.

O momento é delicado, mas o país precisa continuar acreditando em uma saída democrática, com os atores sociais não se rendendo ao desânimo. O povo foi às ruas com as “Diretas Já" para se livrar do entulho do autoritarismo militar, na década de 1980. E, quando não houver mais como segurar o grito, o brasileiro saberá agir. O sapato está apertando cada vez mais e o calo pode estourar a qualquer momento. É questão de tempo. 

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com

Atacando na origem


Não se trata de pessimismo nem uma opinião contra a repressão policial. Mas as autoridades não vão conseguir vencer o avanço das drogas nem o crime organizado colocando mais policiais nas ruas, aumentando a repressão na rodoviária, no aeroporto, no entorno das cadeias e muitos menos nos bairros mais afastados ou mesmo no Beiral.

A atuação policial contra as drogas e o crime organizado é tão somente uma ação contra os efeitos do problema, e não contra as causas. Já sabemos que mandar usuários de drogas para a prisão significa encaminhar mais um “vestibulando” para a “universidade do crime”, pois também é de conhecimento de todos que quem manda nos presídios, do portão para trás, é o crime organizado.

É muito provável que um usuário de droga se tornará um traficante; de traficante, um passo para se tornar um latrocida ou algo parecido; logo ele será um membro de facção criminosa, que irá reproduzir o ciclo que começa na boca de fumo, prossegue nos presídios e termina nas ruas de novo, onde tudo volta a se repetir.

Quem pega os áudios dos criminosos mandando recados para a polícia ou conversando entre si logo percebe que ali se trata de gente que não estudou ou no mínimo são semianalfabetas, o que indica onde tudo isso começa: na falta de escolas nos bairros periféricos, a começar na infância.

Como a educação infantil não alcança todo o seu público desde a tenra idade, obviamente que, em vez de estarem no maternal no momento certo, as crianças já começam suas vidas em um mundo permissivo ou em risco social, principalmente filhos de mães solteiras que precisam trabalhar ou de pais que não têm condições de pagar uma creche particular.

É partir dessa falha e omissão do poder público, especificamente do Município, que se começa a decidir a vida dos futuros cidadãos. Não há como se cultivar bons cidadãos sem escola desde a infância. Com a ausência da família para acompanhar essa criança desde cedo, logo ela encontrará o caminho das drogas (primeiros as lícitas e, logo em seguida, as ilícitas, as quais são oferecidas inclusive dentro de escolas onde o poder público já perdeu o controle).

Esse é o início do ciclo que produz o usuário que vai acabar saindo um traficante de dentro do presídio, que logo estará nas ruas como um criminoso que serve ao crime organizado. É por isso que a repressão, sozinha, combate apenas os efeitos, e não as causas, e jamais vai conseguir frear essa onda de violência.

É preciso começar por baixo, na origem, cuidando das crianças, das famílias, e construindo mais creches e escolas. Mas quem liga para isso? É mais fácil dizer que é necessário sempre mais policiais nas ruas...


jesseroraima@hotmail.com

Futebol, Justiça e sinuca


Provavelmente quando este artigo estiver publicado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já terá decidido se cassa ou não o presidente Michel Temer (PMDB) por abuso de poder político e econômico. Mas o fato mais importante a ser destacado é que o povo não está nem aí para esse julgamento. Essa vidinha corrida, de casa para o trabalho, dentro de “latas de sardinha”, com boletos para pagar no fim do mês, sequer foi sacudida.

O povo não está nem aí para entender o que é TSE, STJ, STF, nem quer saber como se dá esse rito de julgamento, quem fala, quem acusa, quem defende, se pede vistas, se tem relator, delator ou impostor. A TV Globo até tentou fazer uma novela mostrando como é a Corte, explicando como estão postados os ministros, como é o glamour do Pleno onde ocorre a farsa, ops, quer dizer, o julgamento.

A patetice da TV Bandeirantes foi até mais próxima da realidade do que o brasileiro está pensando, ao comparar o julgamento que ocorria no TSE como se fosse um jogo de futebol (na verdade, caneladas). Afinal, o brasileiro quer saber mesmo é de Flamengo com sua muralha furada, de Vasco rebaixado pegando de 5, de Neymar, de Cristiano Ronaldo...

Não fosse a atuação do ministro relator Herman Benjamin, que votou pela cassação da chapa Dilma/Temer, esse julgamento do TSE não teria nem um verniz para enganar o povo (mas que povo, se ele está prosseguindo com sua vidinha triste e chata?). Então eles continuariam com seu regabofe quando as luzes das câmeras das TVs fossem desligadas.

Independente de qual seja o resultado dessa votação, ficou bem claro nesses dias de sessão e mídia, com direito a rompantes do ministro Gilmar Mendes, que mais parecia advogado de defesa de Temer, que tudo se encaminhava para absolvição do mais retrógrado presidente que o país já teve e o mais enrolado com a bandalheira por meio da Lava Jato.

Apesar de julgamentos serem imprevisíveis, e tudo pode acontecer, pois se tratam dos seres intocáveis da mais alta Corte da Justiça brasileira, é bem provável que Temer seja absolvido mesmo, pois quatro dos ministros já se mostravam propensos a votarem contra a cassação.

Eles sabem que o povo não vai se rebelar, uma vez que, se fosse para ocorrer isso, o cidadão já teria ido às ruas desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) deu aval para um impeachment que tinha a finalidade de tão somente colocar Temer no poder para enterrar a Lava Jato e manter os mesmos esquemas.

O próximo passo agora é arquitetar como colocar o traidor da esquerda, o Lula, na prisão sem torná-lo uma espécie de “mártir”, pois, se deixarem ele livre e solto, é bem possível que ele volte de novo à Presidência. Sinuca de bico.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista


jesseroraima@hotmail.com

quinta-feira, junho 08, 2017

Fim da linha


Assim como a esquerda foi traída por Lula e companhia petista, a direita também foi golpeada por Aécio (PSDB), Temer (PMDB) e seus comparsas. Ficou bem claro que, se a classe política quisesse moralizar o Brasil, não precisaria chegar ao impeachment de Dilma (PT), uma vez que, no atual sistema, o (a) presidente não tem autonomia para decidir sem o aval do Congresso.

Mas um grande golpe no país foi orquestrado para tomar o país de assalto e colocá-lo sob o controle de um grande esquema que visa não somente livrar os políticos corruptos da cadeia, mas tornar o Brasil o mais retrógrado de todos os tempos, a exemplo do que vem acontecendo com as reformas da educação, trabalhista e previdenciária.

Embora o Congresso esteja infestado e comandado por políticos atolados até o pescoço em casos de corrupção, as reformas vêm sendo tocadas longe dos debates e discussões com a sociedade organizada, pois o momento político é propício devido à desmobilização dos movimentos sociais e a divisão histérica de opinião de quem se diz de esquerda e de direita.

Nesse exato momento, quando se decide a cassação ou não do presidente Temer (envolvido em cheio na Operação Lava Jato), por abuso de poder político e econômico, o Congresso, mantido por um esteio podre e fétido, segue com a apreciação das reformas, como se nada estivesse acontecendo, alegando que o país “não pode parar” e tentando dar um ar de “normalidade” a esse momento conturbado.

Essa é a realidade que mostra nas mãos de quem está o país, que precisa ser colocado nos trilhos outra vez, impedindo que esses políticos enlameados com a corrupção concluam esse processo de fazer o Brasil caminhar para trás, tornando-o verdadeiramente uma republiqueta que, em vez de fortalecer tudo o que o brasileiro conquistou, retira os direitos conquistados sob muita luta ao longo dos anos e assinalados na Constituição Federal de 1988.

Embora não saibamos em quem acreditar nesse momento de infestação geral de corrupção, numa provável eleição direta, nem sabemos aonde poderemos nos meter numa eleição indireta, não é possível mais permitir que Temer e seu grupo continuem no poder comandando o desmantelo do Brasil e arquitetando uma forma de os corruptos se livrarem da cadeia.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com

Pedaladas e circo

Jessé Souza* Definitivamente, não dá mais para entender o Brasil depois das últimas decisões políticas e judiciais. A cassação da pre...