quinta-feira, fevereiro 23, 2017

A respeito de... bacanal



Quando ouço Mamonas Assassinas, hoje, lembro que as músicas desse grupo continham (e contém, obviamente) alta carga pornográfica, mas eram tocadas como se fossem inocentes brincadeiras que eram cantadas por muitas crianças. E isso na década de 1990. Era considerado oficialmente como “rock cômico” (sem trocadilhos ou cacofonia, por favor!).

Deixo a análise para os teóricos entendedores do assunto, mas arrisco a comentar que a mistura de suas músicas acabavam disfarçando o teor pornográfico, a exemplo das letras que falavam de suruba do português e do Robocop gay. Os Mamonas misturavam pop rock com sertanejo, brega, heavy metal, pagode, forró e até música mexicana, reggae e o vira do folclore português.

Porém, quase três décadas depois desse fenômeno, eis que surge um parlamentar usando o termo “suruba” para comentar a respeito do momento delicado e triste da política brasileira. Em sua explicação para tentar se retratar, o parlamentar lembrou exatamente que estava fazendo referência à música dos Mamonas Assassinas.

Embora essa música tocasse nas rádios e até nos programas de auditórios da TV nas tardes de domingo, sem que houvesse um clamor pela moral e bons costumes, até hoje ninguém se arrisca a transcrever a letra dessa música (Vira-Vira) na imprensa ou mesmo citar um trecho dela.

Mas o parlamentar não mediu consequências. Em sua consciência, achava que, pela esculhambação em que se encontra a política brasileira, poderia falar abertamente a palavra “suruba” na crítica que fez a respeito do foro privilegiado. É como se a política tivesse mesmo se tornado essa orgia em que todos querem se fartar nas costas do povo.

Acostumados na prática da orgia com o dinheiro público, os políticos há muito tempo perderam a vergonha e nem se ruborizam mais com tanta sem-vergonhice. Os áudios das gravações das delações premiadas são prova dessa desavergonhamento que tomou conta da Nação.

E o povo acaba sendo benevolente com os safados, a ponto de sentir pena de políticos presos visivelmente constrangidos e abatidos em depoimento na frente do juiz. Porque também se acostumou com essa orgia, ainda que faça o papel do português da música dos Mamonas Assassinas (se é que vocês me entendem).

É por isso que os políticos sentem-se à vontade para continuar nessas práticas de bacanal na política. E não será surpresa se eles realmente conseguirem se livrar da prisão e enterrarem de vez a Operação Lava Jato. Aí a suruba estará completa, nas palavras do senador que se acha dono dessa republiqueta da orgia.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Tempos de caju


Enquanto movimentos anunciam uma manifestação nacional para o dia 26 de março, em defesa da Operação Lava Jato, um parlamentar age como um cachorro louco tentando fazer com que a opinião pública acredite que ele não está tentando enterrar as investigações do maior caso de corrupção que o mundo já viu.

Mas é preciso muita atenção nesse momento crucial. Embora esse parlamentar esteja visivelmente tomado por uma cólera canina, ele é dotado de uma mente muito fértil para criar situações ardilosas. Não é à toa que ele é o único a colocar a cara para fora, enquanto os demais preferem agir nos bastidores, de tocaia, para minar a Lava Jato.

O que o cão raivoso está tentando fazer é fixar na mente das pessoas que todos os políticos estão sendo colocados no mesmo saco do ódio por uma “imprensa perversa”. É a mesma tática usada pelo presidente Donald Trump contra as maiores corporações jornalísticas dos Estados Unidos.

Lá, essa tática velhaca tem dando certo. Trump conseguiu se eleger presidente enfrentando toda a enxurrada de denúncia por parte da mídia. Porém, o que muitos esquecem é que Trump foi eleito pelos delegados, e não pelo voto popular, do qual ele não obteve maioria. E não se sabe até quando ele conseguirá segurar a pressão atacando de forma veemente a imprensa.

Por aqui, o que o parlamentar da raiva canina está fazendo é se aproveitar de um vácuo que restou do impeachment que ele mesmo ajudou a articular para “estancar a sangria” da Operação Lava Jato. Naquele momento, existiam “inimigos reais” a serem combatidos, como Lula, Dilma, PT, “comunismo” e o “bicho papão”.

Como não há mais um nome, um político específico ou um monstro eleito no inconsciente popular, então o cão raivoso acha que pode entrar na mente da sociedade para dizer que o “monstro” é a imprensa e as “vítimas” são os políticos. É uma aposta arriscada, pois, se não há alguém concreto para ser combatido, neste momento, então esse nome pode ser o dele próprio, o único parlamentar que tem feito de tudo para enterrar a Lava Jato.

Afinal, o governo Temer (PMDB) está nas mãos dele, que se acha mente brilhante e que traçou o plano de demonizar a imprensa a fim de fazer com que a sociedade brasileira acredite que as vítimas são os políticos.

Até agora, no calor dos saques do FGTS inativo, as pessoas poderão poupar Temer. Porém, resta à sociedade o nome daquele que de tudo tem feito, às claras e insistentemente, para enterrar a Lava Jato: ele, o delatado com a alcunha de “Caju”.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com

terça-feira, fevereiro 21, 2017

De baixo para cima


Todas às vezes que vou ao shopping da área nobre da cidade, vejo donos de carros estacionarem seus veículos do lado de fora para não pagarem os R$3,00 do valor do estacionamento. Essa é uma escolha que a pessoa assume na intenção de economizar, mesmo correndo o risco de terem o veículo furtado ou mesmo danificado pela ação de alguém mal intencionado.

Mas, no domingo passado, ao chegar ao shopping, à noite, vi um carro dentro estacionamento parando ao lado da cancela eletrônica, quando um dos passageiros desceu para tirar um novo ticket. Mas por que alguém, que já estava dentro, pegaria um novo ticket na saída? A resposta é óbvia: tirando um novo ticket, o condutor não precisa mais pagar pelo estacionamento porque o veículo passa a ter uma tolerância para sair gratuitamente.

E assim se faz o Brasil que se veste de verde e amarelo contra a corrupção, mas pratica suas desonestidades diariamente, assim que se sente à vontade, bastando não haver alguma fiscalização ou quando está longe do alcance dos olhares da sociedade. O mesmo acontece com atestado médico falso para justificar falta no trabalho ou na faculdade, por exemplo.

Na semana passada, o site da revista IstoÉ publicou uma matéria intitulada “O golpe do título”, na qual um reitor roraimense é acusado de ter viajado para Cuba, com tudo pago pelos cofres públicos, para receber um título. Conforme a revista, o título foi de “doutor honris causas”, que é vendido a pesquisadores e diretores de universidades brasileiras com a finalidade de turbinar currículos, ao preço de R$ 3.600,00.

O país de doutores que compram títulos, do jeitinho na fila do banco, da malandragem do atestado médico, do ticket burlado no estacionamento é o mesmo da Operação Lava Jato, em que políticos safados roubam os cofres públicos para enriquecerem ilicitamente e bancarem suas campanhas eleitorais a custo do dinheiro do contribuinte.

A esculhambação lá em cima é patrocinada por aqueles que também agem com desonestidade aqui em baixo. Ou seja, o eleitor que pratica desonestidade aqui em baixo é o mesmo que elege o corrupto que rouba a nação lá em cima. É um ciclo, um comportamento generalizado ainda que haja suas honrosas exceções.

Enquanto o brasileiro não assumir suas responsabilidades como cidadão, não haverá esperança de que esse quadro comece a mudar. E será somente pela educação a partir das crianças que se começa a mudar uma geração. O povo brasileiro vem demonstrando que não quer ser conscientizado. Então, é preciso que o cidadão de bem, o que honra a decência, não se esmoreça nem se entregue. É uma batalha longa, deuma geração.

P.S.: Artigo publicado originamente na Folha de Boa Vista 

jesseroraima@hotmail.com

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

A vez da cleptocracia


O desejo de alcançar um governo democrático vem da Grécia Antiga, quando Heródoto teorizou um Estado com um governo eficiente e honesto. Ao longo da história, surgiram vários teóricos que também idealizavam lugares onde tudo funcionasse em perfeita ordem e harmoniza, sem problemas sociais ou políticos. De tão improvável ou impossível, tudo isso foi chamado de utopia.

No Brasil do impeachment, cheguei a imaginar que esse atual grupo que se apossou do poder estava instalando a plutocracia (do grego ploutos: riqueza; kratos: poder). Nesse sistema político, o poder é exercido pelo grupo mais rico, cuja concentração fica nas mãos da elite econômica mediante uma profunda desigualdade de renda e baixo grau de mobilidade social (Wikipédia).

Estava tudo se desenhando para isso até os abutres mostrarem suas verdadeiras intenções a partir do plano de enterrar a Operação Lava Jato,  ação esta que vinha sendo traçada antes mesmo do processo de impeachment, conluio este que contou inclusive com aval do Judiciário.

Os que foram para rua apoiar o impeachment acabaram sendo usados na grande manobra, que é instalar uma cleptocracia no Brasil. Nesse sistema, o Estado é transformado em uma máquina de ganhar dinheiro por meios ilegais. Ou seja, forma-se um grupo que usa a máquina administrativa para enriquecimento próprio. Traduzindo: a cleptocracia é o Estado governado por ladrões.

O presidente Temer foi bem claro ao definir seu ministério mantendo todos os citados na Operação Java Jato, que investiga o maior esquema de corrupção de todos os tempos. Ainda que denunciados judicialmente, tais ministros serão apenas afastados, mas recebendo os salários e com foro privilegiado.

E tudo isso acontecendo com a benevolência daqueles que se manifestaram a favor do impeachment. Não custa lembrar que a cleptocracia é caracterizada também pela ausência da manifestação da sociedade. Essa apatia popular permite que os políticos se apropriem do poder público em todos os níveis com a finalidade de manter o poder econômico. E tudo se completa com a estrutura governamental comandada pela corrupção política.

Ficou muito óbvio que os cleptocratas se apossaram do poder, blindando os corruptos, privilegiando os que sempre se locupletaram do bem público, agindo para impedir as investigações sobre corrupção e entregando o patrimônio dos brasileiros ao capital privado como forma de enriquecerem ainda mais de forma criminosa. É o governo da cleptocracia.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

De Espírito Santo a Roraima


Estar longe da realidade do Espírito Santo faz com que muitos se sintam confortáveis para lançar críticas e avaliações sobre o que está acontecendo por lá, com policiais militares aquartelados e seus familiares bloqueando o portão principal do quartel para que ninguém saia para cumprir o expediente no policiamento ostensivo.

Roraima já passou por situação semelhante. Felizmente, naquela época, o crime ainda não estava organizado dentro do sistema prisional nem a bandidagem se sentiu livre para agir diante da deficiência no policiamento por causa daquele aquartelamento. Talvez hoje a situação fosse diferente, com sérios prejuízos para a sociedade, diante do avanço da criminalidade e das drogas.

Mas o ângulo a ser analisado diante da realidade que parte do ES, e agora do Rio de Janeiro, é outro: as polícias há muito tempo estão largadas ao descaso pelos governantes; o caso do Espírito Santo tão somente revela a realidade da maioria dos estados brasileiros, onde os policiais têm trabalhando no limite há muito tempo.

Não fosse aquele movimento feito pelos policiais militares, além das seguidas manifestações dos policiais civis, a situação estaria bem pior em Roraima.  Mas isso não significa que a realidade local esteja perto da ideal. Ela segue a realidade de sucateamento e desvalorização da segurança pública em todos os estados, com o policial sofrendo todos os tipos de pressão diante de um sistema precário.

Assim como ocorreu com o sistema presidiário, os governos não fizeram esforços para investir na polícia e na segurança pública como um todo. O policial, pressionado no quartel, pela violência da rua e em casa para manter sua família com seus rendimentos cada vez mais apertados, tornou-se um “bomba ambulante” que sequer recebe acompanhamento psicológico e psiquiátrico como deveria.

O trabalhador policial se tornou mais uma vítima desse sistema que destroçou a saúde, a educação, a segurança, o sistema prisional e os demais setores importantes da sociedade. E não se trata deste ou daquele governo, mas de todos que largaram o setor público ao descaso enquanto mantinham seus grandes esquemas, a exemplo da Lava Jato.

A propósito, não é fácil estar numa instituição militar hierarquizada, recebendo pressão dos superiores e dos governantes, e do outro lado pressionado pelos familiares e, acima de tudo, sendo julgado pela sociedade, já que a lei diz que qualquer movimento por parte dos militares é ilegal. Então, só o tempo fará o julgamento do que está acontecendo. Por enquanto, é juntar os cacos e seguir adiante.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com