terça-feira, janeiro 24, 2017

Criador e criaturas


Dois dias depois do artigo “Fake news”, publicado neste espaço, a assessoria de um parlamentar começou a ter muito trabalho para deletar e monitorar a avalanche de comentários de internautas, no Facebook,  acusando o político diretamente como responsável pela morte do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, vítima de um acidente de avião no Rio de Janeiro, no dia 19.

O perfil do parlamentar até hoje recebe uma enxurrada de acusações diretas e indiretas como responsável ou interessado pela morte do relator da Operação Lava Jato no Supremo. Afinal, um áudio revelou o interesse desse político em enterrar as investigações, citando nominalmente o nome de Teori como o mais difícil, dos ministros, de ser dobrado.

Então, diante das paranoias, das teorias conspiratórias e mentiras criadas na guerra de compartilhamentos virtuais, a verdade é a primeira a ser manipulada ou ignorada. E, mediante o grande volume de informações sendo disparadas, as pessoas acabam tendo como verdade as mentiras e fraudes disseminadas na internet.

Como este mesmo parlamentar é um dos fomentadores dessa guerrilha virtual, por meio do chamado “fake news", significa que passou a ser vítima do que ele mesmo alimenta e patrocina, ou seja, o criador sendo vítima de suas criaturas. No jato diário de mentiras orquestradas e compartilhadas nas redes sociais, é muito difícil reverter a criação de um monstro virtual.

As pessoas passaram a viver numa histeria coletiva ao menor sinal de suspeita ou alarme, pois foi instalado um estado permanente de desconfiança e sentimento de ameaça sobre tudo e sobre todos. Basta um pingo de alarme para se criar um clima tenebroso. E os políticos patrocinam isso para que a paranoia coletiva os favoreça e/ou prejudique seus adversários e inimigos.

Eles ajudaram a criar esse monstro e agora passaram a ser vítima deles, com uma sociedade vulnerável a esta avalanche que alimenta as paranoias, destrói reputações e repete mentiras insistentemente para que se tornem “verdades”. E é isso o que está acontecendo com o parlamentar acusado de ser responsável ou interessado na morte do ministro relator da Operação Lava Jato.

No imaginário das redes sociais, o político já foi denunciado, julgado e considerado culpado. Tudo dentro dessa lógica do esquartejamento virtual que se criou e que é alimentado diariamente na guerrilha diária. E que isso sirva de lição ou ao menos de reflexão a todos. Criaram o monstro e o alimentaram da pior forma possível. Ninguém espera mais por investigação ou julgamento. Todo mundo quer ser a polícia e o juiz ao mesmo tempo. Aos políticos, que provem do seu próprio veneno.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Caixas, pandora e Quixote


Ao receber o Governo do Estado como uma “terra arrasada”, a atual administração prometeu uma auditoria e a responsabilização de administradores anteriores pelas perdas e danos causados ao Erário, ao bolso do contribuinte, aos cofres públicos. Mas não foi isso o que aconteceu. Quem apostou nessa administração ficou nesse vácuo da falsa expectativa.

Esse é o grande mal da administração pública: os gestores que deixam os cargos vão jogando as bombas no colo das próximas administrações, as quais acolhem em primeiro momento como discurso de “terra arrasada” e, depois, para justificar a falta de um projeto a fim de recuperar o que foi perdido e fazer a máquina funcionar em favor da sociedade.

Foi assim nesse governo, que passou um bom tempo culpando a administração anterior e que ainda continua usando esse escudo para justificar a incompetência em não conseguir administrar melhor. Está sendo assim com a maioria dos prefeitos dos municípios mais pobres do interior, que sentaram na cadeira para administrar com a bomba já explodindo.

Mas, quem está nas redes sociais, pode acompanhar o prefeito de Iracema, Francisco Araújo, um delegado da Polícia Civil, que está narrando praticamente on-line suas desventuras por ter recebido uma prefeitura falida, largada às traças, saqueada e tripudiada. Ele está dizendo que vai recorrer à Justiça a fim de responsabilizar civilmente para que gestores anteriores indenizem os cofres públicos por perdas e danos, além de danos morais pelos prejuízos causados àquele município.

O próprio prefeito tem ciência de que pode ser chamado de “louco e perseguidor”, mas é isso mesmo o que acontece com quem quer ver as coisas funcionando em ordem e com o bem público sendo preservado. O Brasil precisa de mais loucos que façam quebrar essa corrente da imoralidade e da corrupção a partir dos municípios, passando para os demais níveis do Executivo, do Judiciário e do Legislativo.

O problema é que algum momento os interesses se encontram e a “caixa-preta” se torna uma “caixa de pandora”, da qual jorram todos os males que irão acometer de novo cada cidadão, deixando aprisionada a esperança de que dias melhores poderão vir.

Já que o governo não vai abrir a caixinha dos segredos milionários, então acompanhemos o que está acontecendo em Iracema, para saber se realmente é possível encontrar alguém, nesse mundo político pervertido, que faça a esperança acontecer e que sirva de exemplo de zelo com o bem público e com o cidadão contribuinte. Ou se será apenas um Dom Quixote...

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com

quinta-feira, janeiro 19, 2017

Menos blá-blá-blá e mais ação


O tambor vinha sendo tocado há muito tempo dentro dos presídios. Os recados vinham sendo dados de dentro da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (Pamc). Mas ninguém quis ouvir o chamado de alerta. Se as autoridades ouviram, fingiram que não era com elas. Estavam preocupadas com suas reeleições, com licitações e acordos particulares ou de grupos.

O problema é que só fingiram que estavam fazendo algo. Audiências públicas, seminários, audiências e workshops não faltaram. Muito se falou, muito se reuniu com cafezinho, água, lanches, ar-condicionado e blá-blá-blás. Mas, logo depois, o silêncio; não o silêncio dos sábios para refletir e agir, mas para se esquivar e enganar.

Na Pamc, em Roraima, de tanto o tambor tocar, a guerra eclodiu, chamando a atenção do país de que tudo está errado e que todos se omitiram (ou quase todos, pois um deputado andava alertando em um programa de TV que tragédias iriam ocorrer, mas ninguém o ouviu e o chamavam de “defensor de bandidos”).

Quando as cenas de carnificina e horror estarreceram o Brasil, então começaram os discursos repetidos de “herança maldita”, “estamos agindo”, “bem que alertei”. Desta vez, em vez do silêncio, o barulho da incompetência. Surgiu, recentemente, até secretário defendendo pena de morte para líderes de facção, com anuência do Congresso, como se isso fosse resolver a questão.

Mais blá-blá-blá, mais engodo. Até paranoia surgiu nesse bolo indigesto, com a autoridade teorizando que estaria surgindo um “novo modelo revolucionário” que visa tomar os poderes constituídos. São mentes anestesiadas que estão no comando, por isso chegamos a esse caos a partir dos presídios brasileiros.

Nossos poderes constituídos já estão tomados por bandidos, obviamente com suas exceções. É só puxar a ficha dos parlamentares no Congresso Nacional e dos ministros que comandam a Nação, além de secretários estaduais, municipais, vereadores e outras autoridades, inclusive no Judiciário.

O que precisamos é de um pacto da sociedade, sem demagogia dos políticos, sem gente pensando na próxima eleição, sem loucos paranoicos que, em vez de proporem remédios para atacar os problemas, ficam querendo seguir as mesmas leis dos presídios: a da trucidação e decapitação.

Existem estudiosos e grupos não governamentais com estudos e sugestões prontos, mas que nunca são postos em prática porque essa política dominada pela corrupção e incompetência não deixa, não permite um pacto em favor do Brasil. É preciso parar com esses discursos ocos e tresloucados. O momento é de união de todos. Os presídios já provaram que todos são incompetentes e que estamos impotentes. É hora de agir.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Degola no Brasil


Uma notícia passou despercebida na avalanche de informação repassada diariamente no átimo de compartilhamentos: um motociclista que fugiu da abordagem policial, foi perseguido pela Polícia Militar e alvejado a tiros por um desconhecido que também estava de moto e atirou contra a pessoa que estava em fuga.

Fugir da abordagem policial ou de uma blitz não é uma decisão correta, mas isso não significa que a pessoa se tornou um bandido especialmente não significa que qualquer um se ache no direito de atirar em alguém pelo simples fato de achar que ali se trata de um bandido.

Outras situações não só têm passado em branco como aplaudidos pela sociedade: o espancamento de suspeitos de roubos e furtos, em uma indignação que ultrapassa a barreira da civilidade e desemboca na barbárie da “justiça com as próprias mãos”.

Quando alguém nas redes sociais fala que está sendo instalado o fascismo, no Brasil, muitos surgem logo com suas postagens que se assemelham a canivetes no pescoço de quem emitiu a opinião. E quem pede bom senso e civilidade logo é tachado de “comunista”, como se isso também fosse a senha para ser chamado de “criminoso”.

Está, sim, sendo instalado o fascismo no Brasil, com a maioria da sociedade aplaudindo a matança de presos nas penitenciárias brasileiras como forma de “faxina” em um país que perdeu as rédeas da situação. Não se discute mais a adoção de pena de morte, e sim autorização para a barbárie, seja no presídio, seja pelas mãos da polícia e pelas próprias mãos trucidando um acusado de roubo no meio da rua.

Na semana passada, um acusado de roubo foi espancado no meio da rua inclusive com bastão de baseball. Levado para o hospital, foi liberado sem a realização de exames mais específicos, por isso ele morreu na delegacia. Isso está na lógica do “bandido bom é bandido morto”. Mas o que ninguém se atentou é que qualquer pessoa também pode ser liberada do hospital para morrer em casa por falta de exames.

Com um governo ilegítimo que chegou ao poder por meio do discurso fascista, legitimando um impeachment pelo anarquismo jurídico, não é de se estranhar que o Brasil descambou para o que presenciamos agora.

Estamos aceitando passivamente que a barbárie se instale como solução imediata para problemas pelos quais o Estado lavou as mãos.

E nos tornamos fascistas sem nos darmos conta, pois há um sentimento de que a solução é trucidar, eliminar, cortar o pescoço e fuzilar. Mas essa barbárie é defendida somente para os bandidos pés de chinelo, nunca para os de gravata. Se não refletirmos sobre isso, daqui a pouco qualquer um pode ser trucidado só porque alguém gritou que se tratava de um ladrão.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com

terça-feira, janeiro 17, 2017

Fake news



Em uma dessas visitas que as escolas promovem à Redação do jornal, presenciei uma garotinha de não mais do que 7 anos de idade questionar a respeito de notícias falsas que circulam na internet. Foi uma surpresa diante de uma realidade cada vez mais frenética produzida pelo imediatismo das redes sociais e compartilhamento via WhatsApp, território de ninguém onde as pessoas não querem mais questionar sobre a veracidade dos fatos.

Esse fenômeno de “notícias fakes (falsas)” não é novo e vem sendo usado há um certo tempo nas campanhas eleitorais em vários estados brasileiros, inclusive aqui, em Roraima, onde exército de fakes é contratado para disseminar falsas informações a fim de prejudicar adversários e beneficiar aqueles que pagam pelo serviço.

Essa onda orquestrada de compartilhamento de notícias falsas está dentro da lógica do chefe da propaganda nazista Joseph Goebbels, que dizia: “Uma mentira repetida milhares de vezes vira uma verdade”. Com um volume grande informações sendo disparadas de forma veloz, as pessoas acabam tendo como verdade as mentiras disseminadas na internet.

Foi assim que Donald Trump venceu as eleições nos Estados Unidos, utilizando o que ficou chamado de “fake news", a disseminação de notícias falsas favoráveis a Trump, em uma campanha eleitoral na qual a mídia tradicional sentiu o impacto dessa nova força que desafia a imprensa.

Para se ter uma ideia da força das notícias falsas ou maquiadas, começou a circular um vídeo em que aparece um feirante juntando água de um buraco no asfalto para molhar as verduras em sua banca. Mesmo que a placa do veículo que aparece na imagem seja do Estado do Piauí, o vídeo circulou como se fosse de uma feira de Roraima.

Não se sabe onde isso pode descambar em um futuro bem próximo, afetando a sociedade a exemplo do que ocorreu nos Estados Unidos. A sociedade de uma forma geral tem um desafio muito grande para saber se livrar da descontextualização e distorção dos fatos para que erros e injustiças não sejam cometidos, tornando mentiras em verdade, fofocas em fatos, preconceito e racismo em situações aceitáveis e normais.

A esperança é essa, da garotinha que veio a uma Redação do jornal já trazendo essa noção de que fatos estão sendo fraudados na internet. Quem sabe a escola possa ter um papel importante em discutir isso desde cedo, para que as crianças cresçam sabendo que é preciso pensar além da “matrix”. Caso contrário, estamos todos correndo grande perigo, incluindo aí a mídia tradicional sendo devorada pelas mentiras repetidas com agilidade e competência, como os nazistas idealizaram.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

jesseroraima@hotmail.com