terça-feira, junho 13, 2017

Atacando na origem


Não se trata de pessimismo nem uma opinião contra a repressão policial. Mas as autoridades não vão conseguir vencer o avanço das drogas nem o crime organizado colocando mais policiais nas ruas, aumentando a repressão na rodoviária, no aeroporto, no entorno das cadeias e muitos menos nos bairros mais afastados ou mesmo no Beiral.

A atuação policial contra as drogas e o crime organizado é tão somente uma ação contra os efeitos do problema, e não contra as causas. Já sabemos que mandar usuários de drogas para a prisão significa encaminhar mais um “vestibulando” para a “universidade do crime”, pois também é de conhecimento de todos que quem manda nos presídios, do portão para trás, é o crime organizado.

É muito provável que um usuário de droga se tornará um traficante; de traficante, um passo para se tornar um latrocida ou algo parecido; logo ele será um membro de facção criminosa, que irá reproduzir o ciclo que começa na boca de fumo, prossegue nos presídios e termina nas ruas de novo, onde tudo volta a se repetir.

Quem pega os áudios dos criminosos mandando recados para a polícia ou conversando entre si logo percebe que ali se trata de gente que não estudou ou no mínimo são semianalfabetas, o que indica onde tudo isso começa: na falta de escolas nos bairros periféricos, a começar na infância.

Como a educação infantil não alcança todo o seu público desde a tenra idade, obviamente que, em vez de estarem no maternal no momento certo, as crianças já começam suas vidas em um mundo permissivo ou em risco social, principalmente filhos de mães solteiras que precisam trabalhar ou de pais que não têm condições de pagar uma creche particular.

É partir dessa falha e omissão do poder público, especificamente do Município, que se começa a decidir a vida dos futuros cidadãos. Não há como se cultivar bons cidadãos sem escola desde a infância. Com a ausência da família para acompanhar essa criança desde cedo, logo ela encontrará o caminho das drogas (primeiros as lícitas e, logo em seguida, as ilícitas, as quais são oferecidas inclusive dentro de escolas onde o poder público já perdeu o controle).

Esse é o início do ciclo que produz o usuário que vai acabar saindo um traficante de dentro do presídio, que logo estará nas ruas como um criminoso que serve ao crime organizado. É por isso que a repressão, sozinha, combate apenas os efeitos, e não as causas, e jamais vai conseguir frear essa onda de violência.

É preciso começar por baixo, na origem, cuidando das crianças, das famílias, e construindo mais creches e escolas. Mas quem liga para isso? É mais fácil dizer que é necessário sempre mais policiais nas ruas...


jesseroraima@hotmail.com

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